Entendendo a alopécia androgenética

Você já ouviu falar da alopécia androgenética, mas provavelmente através de seu nome popular, calvície. Essa é a forma mais comum de alopecia em ambos os sexos, e segundo censo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, ela está entre as dez queixas mais frequentes nos consultórios dermatológicos em pacientes de 15 a 39 anos

A doença é marcada por queda e afinamento do cabelo devido a uma alteração do ciclo capilar, responsável por miniaturizar os folículos e progressivamente converter os fios de cabelos terminais em velos curtos e menos pigmentados. 

Embora se apresente com diferenças clínicas claras, a alopécia androgenética afeta ambos os sexos, com uma prevalência consideravelmente superior em pessoas do sexo masculino. Estima-se que cerca de 50% dos homens desenvolverão algum grau de calvície após os 50 anos.

Por se tratar de uma doença de origem genética, não há cura. Contudo, hoje em dia, contamos com excelentes tratamentos de controle, capazes de reverter a certo nível a perda de cabelo. 

Para que se tenha um bom prognóstico do quadro, é muito importante que seja feito o diagnóstico precoce do distúrbio. Você precisa reconhecer os sinais da doença e logo procurar ajuda especializada. O dermatologista é a pessoa certa para te acompanhar. 

Ao longo deste artigo te apresentaremos em detalhes a alopécia androgenética para que você não só seja capaz de reconhecê-la, mas entenda em profundidade o que ela é, quais são as suas causas e como é feito o seu tratamento.

O que é alopécia androgenética?

A alopécia androgenética, popularmente conhecida como calvície, é uma doença genética marcada pela queda capilar. O distúrbio acomete principalmente a parte frontal do couro cabeludo. 

Tudo acontece por causa de uma alteração no ciclo folicular, mais especificamente pelo encurtamento da fase anágena (fase de crescimento capilar). Falaremos mais sobre isso adiante. 

Este distúrbio, apesar de consideravelmente mais comum em homens, como vimos, afeta ambos os sexos. O problema se relaciona a hormônios sexuais tipicamente masculinos presentes em menor quantidade em mulheres, um dos fatores que explica essa diferença na prevalência. 

Quando em homens, é denominada alopécia androgenética de padrão masculino, já em mulheres recebe o nome de alopécia androgenética de padrão feminino. Vamos entender melhor essas diferenças?

Sintomas 

As diferenças sintomatológicas explicam a separação entre padrão masculino e feminino da doença. A seguir descreveremos em detalhes cada um eles.

Alopécia androgenética de padrão masculino

A alopécia androgenética de padrão masculino começa a se manifestar bem cedo, logo após a puberdade. Geralmente seus primeiros sintomas aparecem entre os 17 e os 23 anos. 

Tudo começa com uma queda contínua e persistente. Os fios não caem de uma vez só, vai havendo uma perda progressiva, mas notável ao longo do tempo. 

Algumas pequenas falhas começam a aparecer próximas à testa, costumeiramente como grandes entradas, como você deve conhecer. Mais tarde, a queda atinge o topo da cabeça, dando origem ao que popularmente chamamos de “coroinha de padre”, um pequeno círculo sem cabelo. 

Se o quadro descrito tiver início antes dos 25 anos, ele tende a ser acelerado, tomando conta de toda a parte superior da cabeça rapidamente. Contudo, se os fios começam a cair mais tarde, por volta dos 25/26 anos, geralmente surge um quadro mais lento, com uma melhor resposta ao tratamento, inclusive. 

De qualquer forma, todos os homens que tiverem tendência genética à calvície, mesmo que passem décadas sem apresentar nenhum sinal, provavelmente desenvolverão o quadro após os 50 anos.

Alopécia androgenética de padrão feminino

Você conhece alguma mulher calva? Dificilmente encontramos uma mulher portadora de alopécia androgenética por aí, contudo, o problema pode sim, atingi-las e se manifesta de formas diferentes das que conhecemos no sexo masculino. 

Geralmente até a menopausa as mulheres não apresentam nenhum sinal de calvície, já que estão protegidas pelos hormônios femininos. Entretanto, com o envelhecimento os níveis dessas substâncias começam a cair, e juntamente com essa queda, começam a aparecer os sintomas da predisposição genética, a queda anormal dos cabelos

Nas mulheres, não são os fios da frente os primeiros a caírem. Seus fios vão se tornando mais finos e rarefeitos, e a queda tende a se iniciar pelo topo da cabeça, onde o couro cabeludo vagarosamente vai se tornando visível. 

Atualmente, vivemos um crescimento na prevalência da alopécia androgenética em mulheres. Esse aumento do número de casos é explicado pela maior carga de estresse e ansiedade experimentada. Além disso, alguns estudos apontam que o excesso de produtos químicos e as dietas hiper-restritivas também estão cooperando nesse sentido.

Por que o cabelo cai?

Para entendermos o que causa a queda de cabelo em casos de calvície, precisaremos relembrar as fases do ciclo capilar.

O processo de desenvolvimento de cada fio se dá de maneira independente em cada folículo piloso e é dividido em três fases: 

  • Anágena: proliferação – duração de dois a sete anos.
  • Catágena: involução – duração de duas semanas.
  • Telógena: repouso – duração de três meses.

Ao que tudo indica, em casos de alopécia androgenética há um atraso entre a queda e o crescimento de novos fios, fazendo com que o folículo permaneça vazio por um determinado período. 

O ciclo capilar é controlado por meio de mecanismos localizados no próprio folículo, que funcionam por meio da interação entre moléculas reguladoras e seus receptores. 

Sendo assim, a queda dos fios representa um erro regulatório, que causa o término prematuro da fase anágena pela redução dos níveis de fatores estimulantes e pelo aumento de citocinas que estimulam a apoptose (morte celular).

Os resultados disso são os sintomas que você acaba de conhecer.

O que a testosterona tem a ver com a calvície? 

A fisiopatogenia apresentada acima tem relação direta com a ação da testosterona. 

Existe uma enzima, a 5α-redutase, produzida pela próstata, pelos testículos e, o que aqui nos chama atenção, pelos folículos capilares, capaz de mudar a testosterona, um hormônio sexual tipicamente masculino, para sua versão mais potente, o que chamamos de hormônio di-hidrotestosterona (DHT).

Quando age sobre o couro cabeludo, esse hormônio gera o afinamento dos folículos capilares, prejudicando diretamente a fase de crescimento capilar.

Sendo assim, resumidamente podemos dizer que a testosterona está envolvida no que denominamos anteriormente de erro regulatório, e por isso, é uma das principais responsáveis pela alopécia androgenética.

Fatores Genéticos

Os fatores hereditários envolvidos na alopécia androgenética ainda são pouco conhecidos. O padrão de herança sugerido é poligênico.

As evidências mais relvantes até então apontam para o gene AR, um gene receptor de androgênico localizado no cromossomo X.

As dúvidas permeiam a herança entre pais e filhos calvos, já que o gene seria herdado apenas da mãe, o que evidencia ainda a imprecisão dos estudos relacionados. 

De qualquer forma, é sim possível que todos os indivíduos de uma determinada família tenham que lidar com um certo grau de calvície, bem como algumas pessoas, embora portadoras dos genes, surpreendentemente não apresentam sintomas.

Agora que você já conhece bem os sintomas da calvície em homens e mulheres, ficou fácil identificar a doença.

Diagnóstico

Agora que você já conhece bem os sintomas da calvície em homens e mulheres, ficou fácil identificar a doença. Se alguém na sua família é calvo, deve ficar ainda mais atento. 

Saiba que nunca é cedo para começar a se cuidar. Quanto mais tarde for feito o seu diagnóstico, mais difícil será reaver os fios já perdidos. 

Diante dos sinais de alopécia androgenética aqui apresentados, recomendamos que agende uma consulta com um dermatologista de sua confiança. 

Durante a consulta, o médico irá investigar com bastante cautela o seu caso, considerando principalmente os seguintes aspectos: 

  • Histórico familiar de alopécia androgenética
  • Perda lenta e gradativa dos fios
  • Outros problemas de saúde, como: anemia, infecções, hipotireoidismo, falta de vitaminas e síndrome do ovário policístico.

Exames Complementares

Embora não haja nenhum exame padrão ouro para o diagnóstico da alopécia androgenética, além da anamnese e do exame físico, o médico pode sim lançar mão de alguns testes complementares, especialmente para diferenciar este de outros distúrbios. Veja a seguir quais são os mais utilizados. 

Teste Genético

O teste genético é realizado através de um esfregaço da mucosa oral do paciente e permite a identificação de pessoas com risco de desenvolver a doença mesmo antes do aparecimento de seus primeiros sintomas. Esta é uma ótima forma de prevenir a perda de cabelos caso você seja filho de pai ou mãe calvos, por exemplo.

Anatomopatológico

O exame anatomopatológico nada mais é do que a biópsia do couro cabeludo. Este teste é muito indicado em caso de dúvida diagnóstica e deve ser feito especificamente na área onde há queda de cabelo. 

Dentre outras possíveis alterações identificáveis pelo procedimento, este exame permite a avaliação da densidade dos folículos pilosos, tornando possível a visualização histopatológica da miniaturização.

Dermatoscopia

Embora seja um teste super simples, a dermatoscopia oferece dados importantes ao diagnóstico da alopécia androgenética por permitir a visualização da diversidade do diâmetro dos cabelos. 

Geralmente, pacientes saudáveis apresentam fios mais espessos na região frontal do couro cabeludo e mais finos na região occipital.

Como tratar alopécia androgenética

Como vimos logo do início deste artigo, não há cura para a alopécia androgenética, havendo apenas alguns tratamentos de controle e reposição capilar. 

As opções são diversas e vão desde medicamentos à cirurgia de transplante capilar. Conheça as mais recomendadas.

Suplementação vitamínica e reposição de ferro

A reposição vitamínica e mineral é de grande valia, já que a perda de fios pode ser acentuada devido à má nutrição. Geralmente é indicada suplementação de vitaminas B12, Biotina e Ferro.

Minoxidil

Sem dúvidas, um dos medicamentos mais famosos contra calvície. O minoxidil é um remédio de uso tópico que atua prolongando a fase anágena, o que contribui para o aumento da densidade capilar. 

Os resultados chegam ao seu pico após 4 meses de uso e, em caso de descontinuação, tendem a desaparecer depois de 6 meses, retornando o quadro para seu estágio inicial.

Finasterida

O Finasterida também é um fármaco muito conhecido. Este medicamento é inibidor da 5a-redutase tipo 2 e reduz a transformação de testosterona em DHT. Sua eficácia já foi comprovada em diversos estudos, que evidenciam uma considerável melhora na aparência da região frontal do couro cabeludo, a primeira zona afetada pela calvície. 

A melhora acontece em duas fases. Primeiramente, ocorre um aumento na quantidade de folículos pilosos, e após 12 meses de uso, a espessura dos fios também começa a aumentar. 

Tais efeitos duram enquanto o medicamento for utilizado, desaparecendo após descontinuação por 12 meses.

Dutasterida

O Dutasterina é um inibidor não seletivo da 5a-redutase, capaz de controlar os níveis de DHT liberados. Seus efeitos são ainda mais potentes que o da Finasterida. Porém, por ser uma opção menos estudada, é também menos utilizada na prática clínica.

Laser de baixa penetração

O laser de baixa penetração é uma alternativa eficaz para o trato da alopécia androgenética. A luz age diretamente sobre o bulbo capilar estimulando a multiplicação das células de cabelo. Além disso, ocorre vasodilatação e um consequente aumento da nutrição da matriz capilar, tornando os fios mais saudáveis e fortes. 

Os resultados deste tratamento se tornam mais perceptíveis após 6 meses de terapia.

Eletroestimulação

A eletroestimulação é um tratamento indolor e que também gera resultados a longo prazo. A técnica consiste na aplicação de microcorrentes sobre o couro cabeludo, o que, assim como no caso da terapia a laser, estimula a multiplicação celular, interrompendo a queda e intensificando o crescimento de novos fios.

Intradermoterapia

Através de um rolo de microagulhas passado sobre o couro cabeludo são abertos pequeníssimos canais, por onde são introduzidas substâncias como silício orgânico e proteínas capazes de interromper a queda e estimular o crescimento do cabelo. 

O tratamento é levemente dolorido, mas produz resultados a longo prazo. Os primeiros sinais claros de melhora aparecem após seis meses.

Transplante folicular coronal

O transplante folicular coronal é um técnica mais avançada para o que já conhecemos como transplante capilar. Neste  caso, ao invés de enxertos de cabelo no couro cabeludo, são colocadas unidades foliculares retiradas do próprio paciente. Para que este tratamento seja possível, o indivíduo deve ter pelo menos 40% do cabelo. 

Os fios implantados caem com algumas semanas, e mais tarde o cabelo volta a crescer normalmente, completando todo o couro cabeludo em até oito meses. 

Embora se trate de procedimento longo, de pelo menos cinco horas de duração, a cirurgia é minimamente invasiva e a recuperação tranquila. 

Mitos e Verdades sobre a Calvície que você precisa conhecer

É impossível retardar a calvície, pois se trata de uma doença genética

Mito. Diversos fatores podem acelerar o processo de perda de cabelo, bem como outros, podem adiá-lo. Quem leva uma vida saudável, alimenta-se bem, pratica atividade física e cuida da saúde emocional, mesmo que portador dos genes, provavelmente tornará e perda menos intensa. 

Dormir com o cabelo molhado pode causar queda de cabelo

Verdade. Claro que isso não causará calvície, afinal, estamos falando de uma patologia genética. Mas dormir com cabelo molhado enfraquece os fios e favorece a proliferação de fungos, havendo um risco aumentado de queda. Algo similar acontece com pessoas que usam muito boné.

Se o cabelo ficar grisalho não há mais risco de calvície

Mito. Essa é uma história bastante curiosa e famosa, mas não se passa de um mito. A questão é que pessoas calvas geralmente perdem os cabelos cedo, o que acaba passando essa ideia. Contudo, não há distinção entre indivíduos grisalhos e os demais, como vimos, algumas pessoas portadoras do gene da alopécia androgenética só apresentam sintomas após os 50 anos.

Estresse pode acarretar queda de cabelo 

Verdade. Isso não significa que você irá ficar calvo, a calvície é uma doença genética. Contudo, as alterações hormonais relacionadas ao estresse tendem a intensificar a queda capilar tanto em pessoas saudáveis quanto em postadores da alopécia androgenética.

Remédios caseiros evitam a calvície

Mito. Apresentamos ao longo deste artigo as principais opções de tratamento para esse distúrbio, mas mesmo o melhor tratamento dificilmente evitará por completo a calvície. Soluções caseiras como vinagre, bicarbonato e mel podem ajudar na aparência dos fios, no entanto, elas não impedem a progressão da queda. 

Ficou com alguma dúvida? Deixe sua pergunta abaixo, faremos questão de ajudar. 

Dra. Juliana Toma

CRM-SP: 156490 / RQE: 65521. Médica Especialista em Dermatologia pela SBD. Residência Médica em Dermatologia pela UNIFESP - Universidade Federal de São Paulo. Pós-Graduação em Dermatologia Oncológica pelo Instituto Sírio Libanês. Pós-Graduação em Pesquisa Clínica - Principles and Practice of Clinical Research - Harvard Medical School (EUA).

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